April 19, 2008

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PARTE 24

Eu te amo porque te amo e não sei ser outra coisa. Por isso, sou amante-assassina e fui o que fiz. Eu a convidei para tomar um café dizendo que eu era uma editora independente. Eu a convidei para ir até o meu apartamento.
Eu a droguei com algo ilícito em um drink. Eu peguei um candelabro que comprei especialmente para isso porque toda a vez que eu brincava de Detetive quando adolescente, eu sonhava em matar alguém com um candelabro, na biblioteca que nunca tive. Eu bati umas 5 vezes com aquele candelabro na nuca de cabelos batidos, até ver o sangue escorrendo sobre o tapete que foi queimado depois. Eu a cortei em pedaços. Espalhei cada saco de carne em vários lugares da cidade e até hoje tenho uma de suas mãos no meu freezer. Que mãos lindas ela tinha!

Eu a matei não só porque o amo, mas porque sempre tive inveja dela, por ela escrever incrivelmente melhor do que eu. Imaginei mil vezes você admirando cada conjunto de palavras que saíam assim, como se nada fosse, daquela cabeça incrivelmente pensante. Mas agora isso acabou. E todas as palavras dela não são suas e de mais ninguém.

postado por claudia ( 8:37 PM) | escreva também (1)

April 12, 2008

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PARTE 22

Foi no dia em que você descobriu tudo que também descobrimos que eu estava louca. Eu cheguei naquele ponto em que posso ser perigosa para mim. Eu já não só não queria dormir para não ficar sem olhar para você, como eu já tinha matado a outra e chaveado nós dois durante 3 dias no seu novo apartamento. Escondi o celular, arranquei o telefone fixo da parede, amordacei você para que não pedisse ajuda. Mas sempre foi amor. A-MOR.
Nunca senti isso antes, eu juro. Nunca planejei perder o controle, porque pode-se querer muito isso. Pode-se mentalizar, criar uma vida, mil planos, sugerir ao cérebro e pimba! Ficou louca.

Eu fiquei louca. E estava adorando ficar louca. Até que você deixou outro bilhete dentro do meu livro:

“Vou deixá-la. Quero a separação. Hoje mesmo vou arrumar minhas coisas e voltar para a casa de meus pais. Isso até que você diga: ‘não quero mais ser louca. Serei outra para sempre.’ ”

postado por claudia ( 8:56 PM) | escreva também (0)

April 7, 2008

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PARTE 19

Quando eu era menina, tinha medo de fotografia. Não entendia porquê, ao ouvir “olha o passarinho”, nenhum passarinho saía dali. Não suportava aquela luz que cegava meus olhos. Simplesmente pensava: isso só pode ser do mal. Isso deve roubar a minha alma, fazer uma doença surgir na minha cabeça. Morria de medo daquela coisa sem explicação que não dava resultado imediato nenhum. Então, sempre nos meus aniversários, o que mais se tem registrado é uma menina de maria-chiquinha no colo tentando não olhar para a câmera, abrindo o berreiro. Ou uma menina ao longe, olhando de canto, feito um gato arisco. Ou aquela mesma menina escondida debaixo da mesa da cozinha com pânico daquele instrumento malvado que fazia mal para a família inteira, mas que todos insistiam em usar. Algo nocivo como o cigarro, o álcool, o sol sem protetor.

Mas, naquele dia em que viajei sozinha para ficar longe de você, para pensar melhor em nós e ver como amenizar todas as minhas dores eu vi uma menina sendo fotografada pela mãe. Ela tinha, mais ou menos a idade em que eu morria de medo de fotografia. E, ao contrário de mim, fazia pose, sorria feliz. Mas quando a mãe da menina fez a foto eu logo entendi porque ela não sofria dos meus medos. Ela clicou e correu até a menina, mostrando o visor. E a menina, atentamente, via o resultado: ela mesma, sorrindo, toda bonita. Foi aí que eu me dei conta: se existisse câmera digital quando eu era apenas uma menina, este medo não existiria. Se eu pudesse ver na hora o que você sente, de verdade. Se eu pudesse ver em imagens os desejos e o amor, se tudo fosse imediato e certeiro, se ninguém precisasse esperar por uma posterior revelação eu não teria medo das fotografias que você faz de mim e que eu não consigo ver. E se existisse um homem como você quando eu era apenas uma adolescente virando mulher meu outro medo também não existiria.

Evoluções nos salvam dos medos, eu sei.

postado por claudia ( 1:07 AM) | escreva também (1)