December 25, 2007

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PARTE 5

Eu não tinha certeza do que eu queria ser. Em que parte do mundo gostaria de morar. Se queria ter um filho menino ou menina. Pensava agora em ler todos os livros do mundo, como eu desejava na infância - isso um dia quase me enlouqueceu.
Quando tomei gosto pela leitura aos 9 anos e descobri que haviam bilhões de livros no mundo e que eles continuariam sendo escritos e que eu morreria sem ler quase nada, eu fiquei mal. Eu queria, simplesmente, morrer. Morrer logo para não ter que passar por esta frustação. Lembro nitidamente da sensação – morrer pela impossibilidade de ler todos os livros do mundo. Quase enlouqueci minha mãe – ela não entendia o que eu estava dizendo, porque aquele pensamento não era normal para ninguém. De onde vinha a minha loucura? De que gens? De que geração? De que espírito reencarnado? Eu era uma menina feia de 9 anos que queria morrer porque não conseguiria ler todos os livros do mundo. Foi neste momento que o rumo tomado deveria ter sido outro. Minha mãe deveria ter me levado a algum lugar para entender a minha cabeça. Para que eu pudesse me entender. Para que eu não crescesse tendo estes pensamentos ansiosos.

Mais tarde eu quase morri disso.

postado por claudia (10:58 PM) | escreva também (0)

December 22, 2007

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PARTE 3

O fato de eu estar perdida não tinha nada a ver com ele. Tinha a ver com as frases malditas que eu havia lido. Tinha a ver com tudo o que aprendi sobre a vida - quanto mais sabemos, ao contrário do que muitos ditos sábios diriam, menos dominamos qualquer situação. Não adianta saber como funciona a doença xy, se não podemos salvar ninguém. De nada adianta saber como se deve pilotar um avião, como deve ser uma aterrissagem perfeita se não estamos na cabine de comando. Coisa nenhuma adianta saber que a tristeza passa, porque não conseguimos fazê-la passar, assim, de um dia para o outro. Não adianta ter consciência de que aquele é o homem errado, se o coração está dando a mínima para o seu cérebro.

Nada. Nada a fazer.

postado por claudia ( 7:18 PM) | escreva também (0)

December 15, 2007

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PARTE 6

Escrever é um modo de exorcisar alguma coisa. Mandar embora a dor, pensar melhor sobre o que parece loucura, mas é só um fato comum, feito a morte. Escrever é expulsar os demônios da realidade sem sair dela. É ler a sua vida, o que passou e deixar que, finalmente, tudo passe. Registrar é admitir que aquilo ficou para trás. É um diário sem cadeado, cheio de segredos em aberto. É não ter medo de contar o que houve e tudo o que você sentiu.

Eu senti muita coisa nestes últimos tempos e nada foi registrado em prosa. Tudo era registrado em versos que eram apenas cúmplices, mas nunca claros. Sempre nebulosas, as frases soltas, não centravam o pensamento. Nunca deixavam realmente claro cada acontecimento. Nunca tinha escrito sobre as traições que sempre neguei. Eu fiz sexo oral, eu gozei, eu passei horas fazendo de tudo na cama de quem eu conheci ontem. Eu usei as nossas camisinhas. Eu tirei as fotografias nossas da parede. Eu menti descaradamente. Eu reuni as amigas para contar. Eu relatei cada detalhe. E ri feito bruxa, em uma gargalhada alta, sem o mínimo remorso.

Só que aquela não era eu.

Aquela não era ninguém.

Aquele era apenas um corpo reprimido seguido de um pescoço segurando uma cabeça exausta de ser sempre eu. Ser aquela cheia de métrica, horários, filosofias tão vãs, princípios decorados na sala de estar da minha mãe:
“-Repeat after me:
Moça que dorme com rapazes é PUTA.”
Assim eu cresci, com este “repeat after me”. Cresci pensando que sexo só poderia ser com amor. Que drogas matam. Que mulher tem que ter cabelo comprido. Foda-se o cabelo comprido. Foda-se.

postado por claudia (10:02 PM) | escreva também (0)

December 13, 2007

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PARTE 4

Dia desses eu li um livro muito ruim. História mal escrita, sem acontecimentos, mas eu precisava chegar até o fim. E fui. Firme, me segurando para chegar à última página. Ao menos, aquela história serviu para dizer que tudo poderia ser diferente. Que se a personagem x tivesse decidido y, se não tivesse sido tão exigente, a sua história seria outra. Não gostei nada de pensar nisso, pois eu não queria agora, a esta altura da vida, me arrepender das minhas escolhas. O engraçado é que foi inevitável e, quando eu pensava “e se…”, “e se…”, tinha a sensação de que eu poderia voltar atrás. Mesmo com o tempo que passou louco pela minha pele, eu poderia voltar àquele lugar, poderia rever aquela pessoa, poderia retomar aquela história. Mas eu, realmente, não queria. Estava me jogando para frente. Queria ir em frente. Acreditar no novo, no futuro, sem resquício nenhum do passado. Eu queria fazer o que nunca tinha feito: mudar de profissão, de cabelo, de tipo de roupa, de filosofias, de corpo. Usar tênis todo o dia, abolir o salto. Comer bananas no café da manhã. Gostar de dormir sozinha outra vez. Ler um livro cedo da noite. Colocar a TV no mudo e pensar no silêncio. Ficar mais de uma semana sem beber. Apagar todas as mensagens dele do celular. Me sentir centrada.

Eu estava pronta para ser outra. Totalmente outra.
Uma que nem eu conhecia.

postado por claudia ( 9:51 PM) | escreva também (0)

December 9, 2007

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PARTE 8

Foi no meio do livro que encontrei o bilhete: “A sua clareza me apaixona.”
Ele deveria ter deixado na noite anterior quando eu peguei no sono depois de explicar tudo o que eu achava sobre as atitudes das pessoas em seu local de trabalho. Eu fico aterrorizada com certas coisas que fico sabendo, em como as pessoas se expressam ou não se expressam. Em como se erra pela simples falta de comunicação ou a própria ignorância no assunto.

Eu nunca adimiti que sabia algo que eu não sabia. Nunca tive a mínima vergonha de dizer que não entendi ou que não conheço tal termo ou como se faz tal coisa. Mas também, depois que explicavam, eu imediatamente entendia e já me pegava pensando em como aquilo poderia ser feito de uma forma melhor. Nada mais perfeito do que saber pouco do assunto – tecnicamente falando – para poder opinar de acordo com a realidade. A realidade que se tem a obrigação de observar, principalmente para eu que sempre fui escritora e que já tinha lançado uma penca de livros de ficção. Mas estava cansada de inventar histórias. Agora eu só queria viver uma história real. E seria com ele. Teria que ser com aquele homem que, de vez em quando dormia na minha cama, deixava seu cheiro doce no meu travesseiro e me presenteava com bilhetes no meio dos livros que eu lia.

postado por claudia ( 8:32 PM) | escreva também (0)

December 8, 2007

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PARTE 1

Naquele dia eu tinha tomado algumas decisões. Eu recomeçaria tudo, mas não sabia por onde começar. Nem por isso me senti ansiosa ou inquieta. Estava serena, tranquila, introspectiva. Estava cansada da bebida – do whisky sem gelo, da quantidade exacerbada de homens – praticamente metade de um alfabeto, das poucas horas de sono e das irresponsabilidades - dirigir embriagada de uma cidade a outra.

Eu tinha que recomeçar. Nem que fosse pelo fim.

Só me restavam alguns pensamentos já descrédulos do que poderia acontecer dali para frente. Eu estava pagando pra ver se tudo o que eu acreditei a vida toda, aconteceria. Eu estava começando do zero só para esperar a campainha tocar, o telefone chamar, a luz acender. A minha porta ficaria entreaberta, mas diferente das outras vezes.
Agora tudo o que eu assumisse, seria para sempre (mas disso, ninguém poderia saber).

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NOTA: Esta história não terá capítulos em sequência lógica. Monte seu quebra-cabeça depois.

postado por claudia ( 8:29 PM) | escreva também (0)