July 3, 2009

sem graça

Assim, meu amor, não tem graça:
a gente discute
sai gritando
voz rasgando
até vidraça.
Quebra o pau
quebra vaso
e depois se abraça.
Mantém distância
desfaz o laço
se faz cansaço
não permite o meu expressar
e depois vem fogoso
respirar o meu ar.
Diz que vai embora
da boca pra fora
arruma malas e deixa a porta
depois vejo o meu guarda-roupas cheio
e as malas vazias
por inteiro
(ninguém se importa).
Ah, como não tem mais graça este teatro
sem fantoches:
cada um diz o que pode
depois desdiz
e, de novo, explode.
Assim, meu amor,
eu já sei sempre o fim:
não tem graça
mais pra mim.

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June 22, 2009

pálpebras

Quando as pálpebras dobram duplamente
é porque estou velha.
É porque estou anja, calejada, já eterna.
É porque sou passada do tempo
mesmo que o cônjuge me ache linda
ao vento.
Quando o espelho mostra que o meu piscar
faz duas dobras
eu vejo tudo o que sobra
tudo o que fica
e o que me conforta.
Vejo que o tempo não passou:
está passando
bem na minha porta.
Mas não tenho mais fôlego
para trocar de endereço.
Ele me acha, mesmo assim:
tem um pacto com os correios dos anos.
E então eu tento não piscar resoluta
para que as pálpebras não se dobrem
absolutas.
Mas elas o fazem bem no risco
entre a sombra
e a pele virgem:
uma dobra entre a fronteira da maquiagem
e da estiagem
do tempo sobre a minha pele.
Quando há dobras nas pálpebras
o meu eu se dobra
para o tempo
agora.

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June 20, 2009

carta

Dúvida: eu não vou te deixar bater na porta. Porque eu não tenho dúvida do que sinto. Eu sei o que sinto, o que eu tenho é dificuldade de expressar desculpas pelos meus erros.

Eu não aprendi a pedir desculpas, minha mãe nunca me disse "peça desculpas". Era assim: basta pedir desculpas com os olhos, baixar a cabeça e ficar quieta na cadeirinha alta. Mas em nenhum outro ano na vida, usei tanto esta palavra. E mentalmente, quase todo dia, eu peço desculpas pelos meus traumas. E desculpa, também, por não controlar as minhas doenças psicológicas. E antes que eu me esqueça de quando você me conheceu, desculpa por ter mostrado meu jeito grosseio no exato momento em que você se apaixonou por mim.

Desculpa se preciso de ajuda, desculpa se eu estava cansada e não conseguiria te ajudar naquele dia. Desculpa por ter pisado no seu pé. Eu nunca piso no seu pé, foi a primeira vez.

Desculpa, desculpa, eu estou com o coração pequeninho, cheio de certezas de que amo demais você e meus pequenos seres habitantes desta casa. Desculpa, ele está pequenino agora, quase não suportando sofrimentos, mas eu tenho certeza de que ele sente. E porque ele sente, eu ainda estou aqui.

Desculpa se fico tão chocada com algumas atitudes inesperadas, é que eu não estou preparada pra tudo, eu estou preparada só para que eu já passei e olhe lá. Desculpa por eu não saber muito bem lidar com a novidade boa (e você deveria pedir desculpas por isso também). Desculpa por eu pensar tanto em você, tentando entender as coisas para ver se consigo ser alguém melhor para nós dois. E desculpa se nunca disse que faço isso que relatei na frase acima.

Desculpa por colocar você na minha vida desse jeito, um pouco desajeitada com o amor verdadeiro e cheia de manias de mulher que nunca acreditou antes. Desculpa se não vivi algo parecido antes de você. E desculpa se você acha bem melhor que eu não tenha vivido, porque sentiria muito ciúme. Ah, falando nisso, desculpa pelo ciúme. Às vezes ele vem, mas é quando a gente está com uma deficiência aqui ou ali ou está frágil.

Desculpa por eu me sentir feia quando você me diz que eu sou bonita. E desculpa por ficar encabulada diante deste tipo de elogio. Desculpa por também dizer que você é lindo e você não saber o que fazer com isso. Desculpa.

Desculpa pela expectativa, por ter levantado a voz muitas vezes (mas eu juro que nunca mais o fiz, ao menos, dentro de mim). Desculpa por eu ficar tão sensível quando você fala coisas duras sem pensar. Desculpa por ter chorado tantas vezes durante as discussões (e isso não é desculpa: é que me sinto muito exposta por ter me entregue tanto a você).

Desculpa se aquela sopa que eu fiz te deixou com fome depois. Desculpa se no dia em que fiz a massa, você queria comer pizza e desculpa por tantas vezes que eu dormi do seu lado com o pijama mais feio do mundo. Desculpa por não ter um hálito de hortelã pela manhã. E desculpa por toda a vez que eu disse que você também não tinha.

Desculpa por ser egoísta e também achar que você o é. Desculpa se eu cedi, mas você não viu porque eu não pedi desculpas. Desculpas por eu ter a imensa dificuldade de ser elogiada ou criticada. Desculpa. Eu não sei lidar com este extremos. Mesmo que eu ame extremamente você.

Desculpa por toda a vez que falhei, que não estive no minuto certo vendo o que você queria me mostrar. E desculpa se eu tive a mesma expectativa com você em relação às minhas coisas. Desculpa se achei que precisava doar o meu tempo todo para você ou para nós. E desculpa não ter demonstrado isso para você entender. Desculpa por querer tudo arrumadinho, certinho e sem atrasos. Você também gosta das coisas sem atrasos, mas desculpa por falar.

Desculpa por eu ter um estilo de escrita que você não gosta. Desculpa, é que eu queria que você me lesse. Desculpa se eu ouço tudo muito alto demais, se eu acordo com qualquer barulho. Desculpa se o meu queixo não é harmônico com o resto do meu rosto e desculpa por eu pedir que você me desenhe, eu só queria me ver pelo seu olhar.

Desculpa por pedir tanto pra me ajudar a fazer coisinhas chatas (as coisinhas chatas é que deveriam pedir desculpas pra nós por existirem).

Enfim, desculpa.
Meu coração está pequenininho hoje, mas nunca é tarde para se desculpar pelos grandes erros nas pequenas coisas, pelas bobagens infantis e pela falta de tolerância.

Desculpa, é que eu te amo.

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May 9, 2009

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PARTE 52 - O FIM

Barulho de chaves. Uma entra na maçaneta da porta de entrada. Pausa. Dois passos. Mais uma pausa. Barulho de chaves em cima da mesa da sala. Um chute na minha barriga. Ai! Sim, ele está chutando e você não imagina o quanto. Quatro passos mais lentos. Barulho de papéis sendo rasgados (talvez seja alguma correspondência que ainda ficou na caixinha do Correio). As mãos estão onde eu deixei regsitado nas cartas: bem lá no fundo, perto das formas de gelo, envoltas em papel alumínio. Mais 3 passos lentos, agora com um som mais alto. Deve ser você se aproximando. Vou deixar aqui do meu lado todas as suas cartas, meu amor. Vou largar a caneta agora.

Pléc.
Bum!

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April 19, 2009

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PARTE 45

Finalmente, voltei a escrever. Estava a dias pensando se você seria ou não. Se você existiria ou não. Se você viveria ao meu lado ou não. Se me amaria ou não. Se me desejaria para sempre. Ou não. Se seria um personagem imaginário de uma vida sem graça. Mas não. A minha vida não é sem graça porque eu tenho você. Tenho você bem diante dos meus olhos. Tenho você na minha cama, mesmo que eu olhe para o lado e você esteja olhando para o teto, com as mãos cruzadas sobre o peito. Mesmo que eu chore do seu lado e você não me pergunte o porquê. Porque você não se importa se estou feliz ou triste. Você só se importa com as suas sensações, com os seus traumas, com o seu bem estar, com o seu amanhã. Eu vou junto porque quero. Eu vou atrás porque não sei ser a frente. Eu apenas vou. Vou enquanto você almeja uma vida boa, a mesma que você tinha com ela. Só que sem aquele amor.

postado por claudia ( 5:04 PM) | escreva também (0)

April 5, 2009

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PARTE 51

Fiz o que combinei comigo. Peguei a arma que você tinha e, cuidadosamente, amarrei o gatilho à maçaneta - isso fica fácil já que a porta do nosso quarto foi erroneamente arquitetada e ela abre pelo lado de fora. Perfeito. Nada como uma cagada de um arquiteto para nos facilitar a morte.

Antes disso tomei um banho e passei meu melhor hidratante, aquele que você mais gosta. Escovei cada mecha do cabelo e coloquei a camisola longa que você sempre gostou muito de passar as mãos de baixo para cima, até colocar o polegar na minha vagina e me acariciar deliciosamente. Não deixei cartas, bastam estas todas que passei o tempo todo escrevendo para deixar um livro a você. Eu só queria que você entendesse todo o meu amor, meu desespero e compreendesse a minha necessidadede de desistência.

Meu amor, agora eu só vou esperar que você abra a porta para que eu encontre o meu piegas sossego, a minha piegas liberdade, o meu merecido descanso de tudo o que sinto por você.

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March 24, 2009

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PARTE 49

Você vive dizendo que eu sou a sua amada. Mas você não me ama e me trata como tratou todas as outras (menos ela). Como se eu fosse qualquer outra mulher. E talvez eu seja. Você já parou pra pensar se, realmente, (depois dela) eu sou a mulher da sua vida? (se é que isso existe). Você tem certeza do que me diz quando está dócil feito um cãozinho? Você já parou pra pensar se não é pura carência? Você já parou pra pensar que eu não compreendo a coerência que você diz existir entre o que você sente e o que você diz? Aliás, qual foi a última vez que você me disse uma coisa boa? Ontem? Foi ontem? Eu não consigo lembrar. Porque só as coisas ruins ecoam na minha cabeça. Porque só os pensamentos que você deve ter dela, ecoam na minha cabeça. Porque a minha cabeça é minha e será sempre assim.

Amada seja a minha cabeça. Mas pelo meu psiquiatra.


postado por claudia (10:15 PM) | escreva também (0)

March 15, 2009

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PARTE 43

Começava a redigir o texto para um anúncio de jornal. Lá no meio dos anúncios Classificados, um assassino colocaria o olho, acharia meu número de telefone, fecharia um preço e faria o serviço. Eu só precisava descobrir como redigir isso sem que alguém desconfiasse. Sem que a polícia metesse o pé na minha porta feito filme policial.

Uma vez um amigo meu disse que aqueles senhores que ficam sentados num banquinho nas esquinas do centro com uma plaquinha "empalho móveis", nada mais são do que senhores divulgadores de clínicas de aborto. É um código que ninguém desconfia. E agora, qual seria o código para contratar um matador de aluguel num jornal de alta tiragem? Como eu poderia descobrir? Será que já o fizeram? Será que eu seria a primeira a procurar uma pessoa assim através de um anúncio em um jornal?

"Procuro homem forte que faça serviço pesado. É um serviço único. Sem vínculo empregatício."

"Vaga disponível para pessoas de sangue frio e memória curta. Paga-se bem."

" Quer ganhar dinheiro fácil com o mínimo esforço? Se você procura isso, é discreto e não se arrepende das coisas que faz, ligue para..."

" Preciso de alguém corajoso que quando criança sempre tenha sonhado ser o vilão das tirinhas de super-herói."

Começava a desconfiar que o anúncio Classificados seria a mídia errada. Seria a estratégia errada, como todas as outras da minha vida.

postado por claudia ( 7:52 PM) | escreva também (0)

March 9, 2009

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PARTE 46

A melhor coisa que fiz foi parar com as dúvidas. Foi saber que eu posso falar tudo para você, mesmo que eu nunca consiga. Foi saber que, mesmo que pareça que você não está me ouvindo, você me ouve. Sei que isso pode não ser verdade, mas você disse isso, exatamente assim. E a melhor coisa que fiz foi parar com as dúvidas. As dúvidas sobre o que você sente, o que você sentiu com ela antes. Isso nunca deveria me importar. Mas é muito difícil, principalmente, quando encontro o livro que você sempre disse que mais gosta, no meio das suas prateleiras intermináveis de publicáveis, abro a primeira página e dou de cara com a dedicatória: "Você é tudo o que mais amo na vida e na morte." Não sei porque ela foi mencionar a morte no meio de uma frase que deveria ser somente positiva, mas aquilo me tocou. Ela estava dizendo a você que o amaria mesmo estando morta. E este sempre foi o meu fantasma, você sabe: ela morta, mas viva dentro de você. Não deve existir coisa pior do que isso. Não para mim.

Mas, meu amor, o fato é que cansei das dúvidas, vou pedir a você que me ajude nisso qualquer dia desses. Um dia em que eu perceber que não terei a dúvida de que você vai negar a mim esta ajuda.

postado por claudia (12:19 AM) | escreva também (0)

February 28, 2009

carta.jpg

PARTE 50

Finalmente, encontrei um matador. Chega de viver. Estou cansada de respirar com dificuldade só de pensar que você vai me fazer infeliz. Chega de escrever estas coisas - as palavras têm poder - e eu não sei mais se não sou eu que estou fazendo com que tudo isso aconteça. Estou cansada de escrever e revisar e vem as novas regras da língua portuguesa avisando que idéia perdeu o acento. Foda-se a ideia. Me sinto uma analfabeta tendo que seguir estas novas regras. Me sinto uma analfabeta em acreditar em cada palavra que você me diz (e as que você não me diz também). Acho subumano (vê se pode esta palavra ser escrita assim. Subumano é ter que escrever dessa forma pra você. Feliz dela que morreu antes de ter que escrever seus livros com estas palavras horrendas. Horrendas continua sendo escrita assim? Não aguento mais tanta regra, regra e regra. Fecha parênteses). O que importa é que sei como vou acabar com essa minha vida infame onde amo fantasmas, sinto ciúme de fantasmas, crio fantasmas com lençol branco e tudo. Vai ser fácil. Vou amarrar um fio de nylon na maçaneta da porta e a outra ponta ao gatilho de uma arma que estará apontado para a minha cabeça que estará deitada em um travesseiro vestido com uma fronha branca Trussardi. Esta fronha branca receberá um poá de bolinhas vermelhas que sairá da minha cabeça - feito lata de tinta - e bum! Feito. E quando estiver feito, finalmente, tudo isso, estará acabado.

O matador: a porta que vivi abrindo para você.

postado por claudia ( 7:30 PM) | escreva também (0)

 

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